Fantásticos prêmios mulher

Na paz e sem downvotes: Vou votar em Haddad, mude meu voto

2018.10.24 02:52 MoonGosling Na paz e sem downvotes: Vou votar em Haddad, mude meu voto

Queria fazer aqui algo parecido com o que rola no changemyview, que eu acho fantástico. Acredito que todos nós acabamos ficando presos em bolhas, e por isso venho há um tempo seguindo o brasilivre apesar de discordar da grande maioria dos posts e comentários que vejo aqui, e ser constantemente downvotado quando participo das conversas. Nesse espírito, queria propor um CMV de tempos de eleição e de véspera do segundo turno, com civilidade e debate, que é o que eu espero dos cidadãos do Reddit. Parece legal? Então deixa eu falar um pouco sobre o porque de eu votar em Haddad:
Começo dando o disclaimer que considero muito importante nesse período: Eu não sou petista e não queria esse segundo turno com Haddad. Quando faço aquele teste que lhe coloca nos eixos políticos sempre acabo ligeiramente a esquerda (muito mais próximo ao centro) e fortemente no lado liberal. Eu não tenho sentimentos negativos muito fortes em relação ao PT, mas eu acredito que a política precisa de mudança, e novas coisas precisam ser testadas de tempos em tempos para que possamos avançar em diferentes frontes. Também reconheço o sentimento de antipetismo, independente de ser ou não justo ou merecido, é um impedimento de um governo do PT, e tendo Haddad na presidência o povo provavelmente só se polarizará mais, o que é negativo para a democracia.

Mas, apesar de querer uma mudança no governo, e de não ter votado em Haddad no primeiro turno, agora eu voto nele. Primeiramente porque eu considero Bolsonaro uma ameaça à democracia, devido aos seus discursos que vem de longa data, desde quando ele disse que daria um golpe no primeiro dia, e que através do voto não se mudaria nada nesse país, até quando mais recentemente ele disse que poria um ponto final a toda forma de ativismo. Tem também o mais recente evento de seu filho dizendo que brincam que caso houvesse tentativa de impugnação da candidatura do pai, basta um soldado e um cabo para fechar o STF, e sua proposta de aumentar o número de ministros do supremo, que é uma medida tomada por autocratas, inclusive na nossa própria ditadura militar. A essas preocupações de interpretação se somam as preocupações de Steven Levitsky, cientista político de Harvard que estuda as democracias latino-americanas, e Monica de Bolle, diretora de estudos latino-americanos na universidade de Johns Hopkins, que dizem que Bolsonaro é o único dos candidatos que tivemos nessa corrida eleitoral com claras tendências autocráticas, e que o viés militarístico de Bolsonaro é o que mais se assemelha a, e nos leva na direção de, um governo chavista.
Mas e a anti-democracia petista?
De todas as críticas que o PT pode receber, ser antidemocrático não é uma delas. Foram 13 anos de governo petista sem que a democracia fosse violada. Muito pelo contrário, depois de um sindicalista e uma guerrilheira nós tivemos apenas movimentos que nos levaram para mais perto da democracia, com fortalecimento de órgãos como o MPF. Agora que seria eleito um economista (cientista político e filósofo) e professor que apresentou críticas aos raciocínios marxistas, e que já havia se posicionado, antes de ter a corrida presidencial em mente, dizendo que a Venezuela não pode ser considerada uma democracia. Se o PT tivesse, de fato, um viés antidemocrático seria impensável que ocorresse o que ocorreu durante sua gestão: o impeachment de Dilma e a prisão do ex-presidente Lula, principal figura do partido. Seria impensável mesmo sair as ruas com boneco inflável de Lula em roupas de prisioneiro, ou até ler livros com ideologias contrárias a petista, como acontecia durante a ditadura militar. O fato que tanto Dilma, quanto Lula, quanto o PT aceitaram, com suas devidas reclamações, os destinos democráticos que lhes foram dados é prova de que eles são, sim, democratas. A narrativa do golpe, por mais que eu acredite ser exagerada (como diz Steven Levitsky, eu acredito que o que houve não foi um golpe, mas sim um abuso constitucional), é uma narrativa que não passa disso: exagerada. Mas é válida, e, portanto, é justa e democrática. Antidemocrático teria sido se a força precisasse ter sido utilizada para efetuar a prisão do ex-presidente, ou se Dilma tivesse tentado alguma forma de contra-golpe para se manter no poder. Nenhum dos dois aconteceu, Haddad sequer promete dar induto a Lula, dizendo que acredita na inocência dele, e que isso será provado nas cortes.
Além de antidemocrático, Bolsonaro é uma afronta a tudo que eu acredito enquanto ser humano, sem sequer olhar para política. Ele tem diversos discursos incitando o ódio, como o mais recente e fan-favorite "vamos fuzilar a petralhada". Ele disse que a filha mulher foi uma fraquejada, que quando o filho começa a ficar "gayzinho" leva um "coro" e muda o comportamento, que não estuprava uma colega porque ela "não merece" (depois justificou dizendo que queria apenas chama-la de feia). Ele disse que "de homossexual [...] ninguém gosta, a gente suporta", que é homofóbico com orgulho, e que não ia "combater", mas que se visse dois homens na rua se beijando ia bater. A homofobia é um ponto tão forte nele que ele participou de dois documentários sobre o assunto, o de Stephen Fry, e o de Ellen Page.

Mas ele está apenas defendendo as criancinhas da ditadura gayzista do Kit Gay
Essa ditadura não existe. O "kit gay" também não. De fato, se a ditadura gayzista existisse eu seria um dos primeiros a saber, tendo vários amigos gays que nunca fizeram qualquer menção a querer que as outras pessoas fossem gays (exceto, talvez, quando eles olham para alguém que acham atraente. Tipo quando eu ou você olhamos para uma pessoa do outro sexo e achamos atraente e pensamos "nossa, como eu queria que essa pessoa fosse atraída por mim também"). Eu, sinceramente, não consigo entender a afirmação de que restaurante não é lugar para dois homens se beijarem, porque tem criança vendo. Qual a diferença entre ver dois homens se beijando e ver um homem e uma mulher se beijando? Sou da opinião do viva e deixe viver, e de gostar das pessoas por pressuposto, e desgostar caso aconteça algo que justifique isso (o motivo pelo qual acho tão intragável a afirmação de que "ninguém gosta de homossexual")

Esses discursos de ódio e inflamatórios já estão mostrando seus efeitos, com a grande quantidade de crimes de ódio perpetuados por apoiadores de Bolsonaro. Mas mesmo que não tivesse efeitos tão diretos, o ódio e o preconceito é uma das poucas coisas que eu acredito que não deve ser representada, para não legitimizar aqueles que compartilham desse ódio.

Quanto a corrupção, acredito que é um ponto de extrema importância, e tenho minhas ressalvas em relação a Haddad devido as diversos processos lançados contra ele. Não conheço bem as provas, porém, e sei que ele não foi condenado em nenhum desses processos, tendo sido inocentado já em dois (aqui um deles). Mas mesmo que Haddad seja corrupto (e dizer uma frase dessas me dói, "mesmo que ele seja corrupto"), Bolsonaro é, no mínimo, tão corrupto quanto. Ele se apresenta como o cara que vai limpar o Brasil da corrupção (uma estratégia de campanha que vem aí desde a república velha), mas passou sua vida toda de político no PP, o partido com mais envolvidos na Lava Jato (são 31 do PP contra 6 do PT). Ele também admitiu ter recebido propina e "rejeitado", devolvendo ao partido que depois deu o mesmo valor à ele, e depois justificou o fato de saber que o partido havia recebido propina dizendo que todo partido recebe. Esse último ponto é importante, porque eu sou incapaz de acreditar que uma pessoa que se justificou dizendo que "mas todo mundo tá fazendo" seja capaz de resolver a coisa que estão todos fazendo. Mais pra perto da eleição ele decidiu mudar de partido, escolhendo o PSL, que é um de apenas dois partidos brasileiros com nota 0 em transparência. Isso também torna muito difícil para mim acreditar que ele levará uma gestão transparente. Isso sem mencionar outros casos recentes, como a funcionária fantasma, a omissão de R$2.6mi em bens.

Além disso tudo, as pautas de Bolsonaro são extremamente fracas. Eu fui ler o plano de governo dele e além de mal-formatado (o que já gerou piadas o suficiente) ele passa muito mais tempo apontando falhas e dedos do que fazendo propostas de solução. Acho que em qualquer dado tópico tem uma razão de 3:1 de texto de reclamação e crítica para texto de solução. Isso se traduz em propostas que não são explicadas (como sua proposta de reduzir ministérios, sem dizer quais). Em outros pontos que ele vai mais a fundo (e mesmo o mais a fundo é bem pouco a fundo), eu sou totalmente contrário, como armar a população. Apesar de ver, entender, e valorizar o discurso das liberdades individuais, eu acho que o armamento da população é uma medida perigosa, e que quase toda literatura científica mostra como não sendo uma solução à segurança como ele propõe. Além disso, ele vai contra outras liberdades pessoais que eu acredito que tem precedência maior por serem, realmente, "mais pessoais", como a descriminalização e legalização das drogas, que era um dos pontos do plano de governo de Haddad, e que tem diversos resultados positivos, como em Portugal, que viu um aumento no número de pessoas se tratando por dependência, e a legalização no Colorado permitiu que os impostos sobre a maconha fossem usados para "o bem".

Bolsonaro propõe algo que, em minha opinião, é um ataque a educação no nosso país. O discurso de que há uma doutrinação na educação hoje é, em minha opinião de aluno de um colégio federal que teve muitos professores grevistas e fortemente de esquerda, ridícula. Inclusive, se esse fosse o caso ele não estaria ganhando entre o público mais educado que, justamente, teria passado por essa doutrinação marxista/esquerdista. Mais uma vez dando exemplo da minha escola, eu vi professores essas eleições ocupando quase todo o espectro político, de professor que votou em Boulos, até professor que votou em Amoedo. Eu acredito que o que há na educação não é uma doutrinação, e sim a simples extinção de algumas formas de pensar, que morrem quando estamos em um ambiente de intelectualidade e de compartilhamento de opiniões em que todos são iguais. Por exemplo: Acho muito improvável que você encontre um intercambista que seja xenofóbico, e, de fato, o intercâmbio é usado por algumas organizações pelo mundo justamente para combater esse tipo de pensamento. Isso não acontece porque o intercâmbio é, por natureza, doutrinador, mas sim porque quando você vive a experiência de outra pessoa em outro país, de outra cultura, quando você se torna minoria, aí você começa a ver de maneira diferente as outras culturas, e as minorias em seu próprio país. Eu acho que o mesmo pode ser dito de algumas ideologias, como o conservadorismo, em relação a educação.

Por fim, e de maneira geral em relação ao ponto de propostas, eu acredito que votar no Bolsonaro é assinar um grande cheque em branco, o que pode ser OK se você de fato olha para Bolsonaro e se sente completamente representado por ele, mas acho que não é uma opção interessante para o país como um todo.

Outros pontos comuns de debate:
Haddad foi o pior prefeito da história de São Paulo
E ainda assim ganhou prêmio da Bloomberg Philanthropies, e também da ONU, e foi considerado "visionário" pelo Wall Street Journal. Com ele S.P. teve uma série de avanços, inclusive a recuperação de mais de R$270mi desviados.

Haddad está sendo poste de Lula
De fato, também não gosto disso, mas pelos motivos que coloquei acima, ainda prefiro votar em um poste do que no Bolsonaro
Bom, gostaria agora de me colocar aberto ao debate. Acho que seria realmente interessante se vocês puderem desafiar os pontos que coloquei aqui, e trazer coisas que eu talvez esteja perdendo. Abraço.
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